Vivendo, viajando e vencendo. A trajetória de um gênio empreendedor do tênis

Registro histórico e memórias de uma vida dedicada ao tênis pernambucano e brasileiro a partir da perspectiva de um visionário do esporte

Helson Davi Barros

4/9/202611 min read

Em setembro de 1974, peguei numa raquete de tênis pela primeira vez ao atender o convite do amigo Fernando Costa para jogar uma partida no Clube Internacional do Recife. Em seguida, comecei a jogar com Luciano Carvalho, meu parceiro por mais de 20 anos. Jogávamos no Internacional, Iate, Cabanga e Country.

Luciano e Fernando

Disputei vários torneios interclubes e outros por classe. Como nunca tive uma aula de tênis, meu nível estabilizou na Quarta Classe. Jogava regularmente com Luciano Carvalho três vezes por semana e apesar de correr quase todos os dias na praia, ganhei em média 1 Kg por ano. Meu Cardiologista adverte que feche um pouco a boca.

Davi, aos oito anos, começou sua carreira tenística com o Professor Gena, no Cabanga. Aos 10 anos já ganhava do pai. Tive que acompanhá-lo em vários torneios pelo nordeste. Mônica e Cláudia também aprenderam a jogar e participavam dos mesmos torneios em suas categorias.

Recebemos em nossa casa pelo segundo ano consecutivo, o casal americano Herbert e Juanita, através do programa Companheiros da Geórgia, em outubro de 1982. Tomamos a decisão de permitir que Davi fosse com eles passar três meses em Atlanta.

Herbert e Juanita, 20 anos depois.

Davi aprofundou os fundamentos do tênis com o Professor Fred Bushmeyer e estudou na Cascade School. Fiz minha terceira viagem aos Estados Unidos, em Dezembro, encontrando Davi e Herbert em Miami, onde seria realizado o Campeonato Mundial de Tênis Infanto Juvenil. Apesar de Davi ter apenas 10 anos de idade, jogou na categoria até 12 anos, junto com Jaime Oncins e Marcos Barbosa (Bocão).

Viajamos por várias cidades do Nordeste acompanhando as crianças nos torneios de tênis (Gerimum Bowl em Natal, Sururu Bowl em Maceió, Paraibatur em João Pessoa e outros). Em Recife o nome era Caju Bowl. Mais uma vez, em 1984, fomos para o Orange Bowl em Miami e o Rolex em Nova Yorque, Davi perdeu na segunda rodada.

Fui Diretor do Departamento de Tênis do The British Country Club. Na oportunidade realizávamos torneios do tipo Entabowl para tenistas acima de 40 anos. Cerca de 10 duplas viajavam a Natal, João Pessoa e Maceió. Depois recebíamos em Recife para a revanche.

Viajamos para torneios pelo Brasil (Salvador, Fortaleza, São Paulo, Rio e Brasília). Davi foi para a Califórnia estudar e aperfeiçoar o tênis, de agosto de 1985 até maio de 1986, onde foi campeão em vários torneios. Logo em junho, participou do Campeonato Brasileiro de Tênis na categoria até 14 anos em Porto Alegre onde os melhores tenistas do Brasil formaram uma chave de 128 atletas. Ganhou do Cabeça de Chave Número 1( melhor ranqueado) e chegou nas semifinais.

No Natal de 1986, mais um torneio em Miami. Davi foi o brasileiro que chegou mais longe, perdendo apenas na 3ª rodada. Seguimos para Nova Iorque, onde foi até as semifinais de duplas.

Aos 15 anos, já era o Campeão Norte-Nordeste.

Durante 1987, acompanhei-o a torneios em Montevidéu, Santiago e o Banana Bowl, em São Paulo.

Vários torneios pelo nordeste como Copa Banco Econômico de Salvador e Cajú Bowl, em Recife, recebiam os melhores do país (Gustavo Kuerten jogava estes torneios na categoria até 14 anos).

Em outubro, fomos a Ilha de Itaparica, no Clube Mediterranné, onde assisti meu primeiro torneio com a participação de tenistas profissionais, como Kyrmair, Cássio Mota, Luís Mattar e José Luís Clerk.

Fui convidado a participar de um Meeting de Tênis (36 tenistas acima de 40 anos de 3a e 4a classes), sendo o Campeão em simples e duplas. Como prêmio, ganhei uma passagem para Paris.

Para acompanhar o desenvolvimento tenístico de Davi tive que sair da Construtora Condic. Construí o Hotel do Mar (18 aptos) e o Squash Tennis Center (15 quadras de tênis e duas de Squash).

Para acompanhar o desenvolvimento tenístico de Davi tive que sair da Construtora Condic. Construí o Hotel do Mar (18 aptos) e o Squash Tennis Center (15 quadras de tênis e duas de Squash).

"O amanhecer do Legado"

Jornal Diário de Pernambuco, Julho de 1987

Davi alcançou seu melhor ranking a nível nacional, Número 2 do Brasil, em 1988.

Meligeni, Davi, Furtuna e outros Tenistas.

De junho a dezembro de 1989, Davi morou em Alphaville, São Paulo, estudando, treinando e participando de torneios. Morou em Belo Horizonte, de fevereiro a junho de 1990 e foi campeão mineiro.

A inauguração oficial do Squash Tennis Center aconteceu em dezembro de 1987, com a realização do Masters até 16 anos e a presença dos oito melhores tenistas do Brasil. Davi era o 8o do ranking tendo 15.

Realizamos em abril de 1988 no Squash Tennis Center o primeiro torneio valendo pontos para o ranking mundial onde ele conseguiu sua primeira vitória diante do paranaense Catão.

Em setembro de 1991, assisti a primeira disputa de Copa Davis, Brasil x Índia. Com a vitória, o Brasil se classificou para o grupo mundial.

Na praia de Pajussara, em Maceió, realizava-se um torneio de tênis Challenger da Associação dos Tenistas Profissionais-ATP, em Novembro. Como convidado da promotora Tavaric, iniciei os primeiros contatos para trazer um evento daquele nível para Recife. Joguei o torneio Pro-Am (Um profissional e Um amador), formando duplas com Fernando Meligeni e indo até as finais.

Fomos ao Rio de Janeiro assistir ao confronto Brasil x Alemanha (com Boris Becker e companhia), em fevereiro de 1992.

Em abril, fomos a Maceió, onde o Brasil ganhou da Itália classificando-se para as semifinais.

Fui a Genebra assistir ao confronto Brasil e Suíça, em setembro.

Juntos com a promotora Match Point, Prefeitura do Recife e Governo do Estado realizamos o primeiro Recife Open de Tênis, com a participação de tenistas entre os 100 primeiros do ranking mundial, em outubro. Foram construídas na praia de Boa Viagem, quatro quadras de tênis com piso sintético e uma estrutura para 7 mil espectadores. Davi recebeu um Wildcard (convite) para a chave principal, conseguindo assim seu primeiro ponto no ranking da ATP.

Em março de 1993, fomos a Módena assistir a semifinal da Davis (Brasil e Itália).

Após o 1o-Recife Open de Tênis, acompanhamos a promotora Match Point em vários torneios pelo nordeste como Natal Open, Maranhão Open, Fortaleza Open e novamente em outubro de 1993 o 2o-Recife Open (Gustavo Kuerten jogou o Qualifying).

Em 1994 realizamos o 3º Recife Open. Luis Mattar e Jaime Oncins eram os melhores tenistas do Brasil.

Davi foi para os Estados Unidos estudar na Mercer University, em Macon–Geórgia. Conseguiu uma bolsa por ser o Número 1 do time de tênis. Para garantir a bolsa na universidade, Davi tinha que treinar e jogar muito tênis.

O time era composto de seis jogadores, sendo o número 1 sempre jogava com o melhor das outras universidades. Competia em torneios Satélites, válidos pela ATP, conseguindo vitórias.

Com a permissão da família e do Técnico do time, fui morar com ele em seu apartamento no campus da universidade, durante um mês (20 de março a 20 de abril de 1994).

Cada final de semana tinha um confronto com uma das universidades da conferência (Alabama, Louisiana, Flórida, Carolina do Sul, Atlanta, além daquelas que vinha jogar em Macon). Aproveitei a passagem por Miami e assisti, durante três dias, ao Lipton (Torneio Masters Series).

Meu genro, Roberto Almeida trabalhava no torneio como árbitro. Até então, foi o maior torneio que assisti. Chegando a Atlanta, Herbert emprestou-me seu carro e fui ao encontro de Davi.

Foi uma experiência muito interessante conviver com meu filho, com outros colegas, lavar pratos, fazer comida, lavar roupa, varrer o apartamento, assistir aulas, assistir jogos de Basquete da NBA, acompanhar como técnico assistente todo jogo do time e principalmente as vitórias de Davi.

Os primeiros 50 anos e o icônico Grand Slam Wimbledon

Estava completando 50 anos de vida, em 1996.

A família presenteou-me com uma viagem fantástica: Wimbledon e as Olimpíadas.

Partimos para Londres e desta vez, alugamos um carro inglês, com a direção no lado direito. Passar marcha com a mão esquerda, dirigir pela contramão e não subir no meio fio foram as minhas primeiras preocupações.

Fomos até Wimbledon, muita emoção, pois, trata-se do mais tradicional torneio de tênis do mundo, encontramos Beto de Mônica que estava como árbitro. Denise nos alugou sua suíte e cada dia caminhava até o local dos jogos.

Vimos Sampras, Agassi, Becker, Kafelnikov e outras feras do tênis, mas, a final foi Krajycec e Washington. Um árbitro amigo de Beto e Denise conseguiu um local na segunda fila do estádio. Hingis foi finalista, aos 14 anos, perdendo para Graf. A garota que entrou pelada no estádio passou a 10 cm do meu nariz. Eu só falei: “Furtuna, não me peça pra não olhar”.

No domingo, fomos de carro para Brighton, litoral sul da Inglaterra. Perdi a capa de minha câmara com documentos. Alguém achou, entregou na polícia e no outro dia fui buscar de trem.

Encontramos com Marc Guellner que treinava com Davi em Recife, chegou a Número 30 do Mundo.

Quadra central de Wimbledon

Denise

Finalmente, seguimos para assistir os Jogos Olímpicos de Atlanta. Hospedagem na casa dos amigos Herbert e Juanita. Depois de alguns telefonemas, encontramos a maneira de conseguirmos os ingressos para os jogos do Brasil. Cada dia recebia o ingresso e uma camisa do Banco do Brasil. Herbert às vezes me acompanhava.

Assisti aos jogos de Vôlei, Basquete e Vôlei de Praia masculino e feminino. Fomos filmados pela TV e na abertura das transmissões, no Brasil, aparecíamos cada dia. O Futebol estava sendo jogado em Miami.

Como Furtuna deveria voltar para Recife, aproveitei para deixá-la no Aeroporto de Miami e assisti ainda a dois jogos antes de retornar para Atlanta. A semifinal contra a Nigéria seria realizada em Athens (150 km de Atlanta), teríamos que ir no ônibus da imprensa.

Beto havia esquecido seu craxá no alojamento outro dia, conseguiram um Day Pass (passe para um dia).

De Londres para a odisséia olímpica

Beto me deu essa credencial vencida para ter acesso ao ônibus. Junto com os juizes de tênis, fomos encaminhados à tribuna presidencial. Assistimos ao jogo no mesmo camarote de João Havelange (Presidente da FIFA). A partir desse dia, entrei em todos os eventos da olimpíada. O máximo que aconteceu foi um porteiro dizer: “Sua credencial está vencida, mas pode entrar”.

Foram muitas emoções, Ginástica, Handebol, Atletismo, a final do Basquete Feminino, sem falar do tênis, aonde Fernando Meligeni chegou as semifinais e me abraçou após o jogo.

Planejei assistir um dia os jogos em Roland Garros em Maio de 1997. O problema era conseguir ingresso. O árbitro Carlos Ramos que nos visitara em Recife, prometera para a sexta da primeira semana, mas a ansiedade me fez tentar na quinta. Ao chegar ao hotel de Carlos, o mesmo já havia saído para o estádio.

Chegando ao portão de acesso para pessoas VIP, expliquei ao segurança que meu ticket estava com o árbitro Carlos Ramos, o assunto passou por várias pessoas até que o chefe pediu que alguém me conduzisse até a sala de árbitros. Ao encontrar o Carlos, o segurança retornou e eu estava dentro de Roland Garros.

Consegui ingresso para a quadra central, assisti a vários jogos. Quando me deslocava para outras quadras ouvi um grito: “TIO”. Foi Guga, que me vira e foi aquele abraço

Ele já havia vencido seus dois primeiros jogos e enfrentaria Thomas Muster, na quadra um, no dia seguinte. Falei para o Guga que só tinha ingresso para a quadra central.

Prontamente, me conseguiu um convite para a tribuna. Assisti, a partir daí, os jogos ao lado de Larry. Foram muitas emoções, de repente, um brasileiro Campeão de Roland Garros e uma forte motivação para o negócio do tênis.

No final de Agosto de 1997, assistimos em São Paulo ao torneio Brasil Open de Tênis, com Marcos e Castelli. Beto, Damian e Mônica também estavam. Enquanto Furtuna foi à Monte Alto, Guarujá e Riviera de São Lourenço, fui à Nova Iorque assistir ao US Open de Tênis, mais um Grand Slam.

Depois de assistir ao mais charmoso (Roland Garros), o mais tradicional (Wimbledon) assistia agora ao de maior estrutura. Cerca de 600.000 espectadores estiveram presentes nas sessões diurnas e noturnas. Rafter ganhou de Rusedski na final.